Confesso que esperei a poeira baixar para sentar e escrever este editorial. Até mesmo porque, após uma maratona de acompanhar a conferência da Microsoft juntamente com a moderação do Liveblog do Portalxbox, depois acompanhar a reação da galera nos tópicos dos destaques da E3 e da Live Brasil, assistir as coletivas da EA e da Ubisoft, e ainda uma longa conversa com o PH e depois com Doc por telefone, eu estava simplesmente um caco e sem condições psicológicas de escrever qualquer coisa.
De todas as coletivas de imprensa da Microsoft na E3 até hoje, esta com certeza foi a que mais dividiu opiniões. Arrisco dizer, mesmo sem ter visto as coletivas da Sony e Nintendo ainda, que por conta de toda esta polêmica dificilmente a Microsoft se sagrará vencedora desta E3 2010 naquelas famosas “votações” promovidas pelos sites especializados.
Confesso que eu mesmo tenho sentimentos distintos, grandes alegrias e grandes preocupações para o Xbox este ano.
Começando já pelas boas notícias, finalmente a Live Brasil foi anunciada. E sim, na própria conferência, apesar do nome do Brasil não ter sido proferido pelo Marc Whiteen ou aparecido no telão, o que provocou a revolta de alguns exagerados que pareciam esperar que a Microsoft simplesmente parasse a coletiva, tocasse o hino e soasse vuvuzelas para o anúncio. De qualquer forma, logo após o término da coletiva a Microsoft Brasil se apressou em lançar um press release rapidinho para dar a chancela oficial ao anúncio.
Para nós que acompanhamos muito do trabalho de bastidores e do suor que a Microsoft Brasil e a Corp. deram para trazer esta conquista para o Brasil, só temos que parabenizar a todos pelo trabalho e esforço. O sentimento da maioria esmagadora dos jogadores é de vitória, e há que se comemorar mesmo. Certamente não teremos uma Xbox Live igual à americana, e não há outra no mundo no patamar dela, mas posso certificar que a Microsoft Brasil está fazendo um trabalho muito sério para trazer um serviço de qualidade. E, mais importante que isso, há que se pensar em todo o valor agregado que chegará junto com ela – a possibilidade dos desenvolvedores indie publicarem seus jogos no marketplace; os DLCs sem bloqueio de conteúdo; os códigos para download embutidos nos grandes lançamentos; a possibilidade de conteúdo brasileiro de vídeo e áudio no marketplace; a maior visibilidade das comunidades; a estatística mais refinada do uso brasileiro do serviço.
Excluindo esta excelente notícia para os brasileiros, devo dizer que a conferência em si me decepcionou. Acredito que a Microsoft sofreu este ano daquele grave complexo de superação – a coletiva de imprensa do ano passado teve um nível e um apelo tão gigante, que realmente seria difícil superar neste ano. A missão era inglória, ainda mais considerando o fato que o “efeito surpresa” do Kinect definitivamente já não era mais o mesmo.
Se no ano passado tivemos Paul McCartney, Ringo Starr, Tony Hawk e Steven Spielberg no palco, este ano tivemos uma ausência total de celebridades. Ficou claro que a estratégia da Microsoft este ano foi centralizar todo este esforço de apelo popular na apresentação do Cirque du Soleil, que parece ter sido ainda mais controversa nos relatos de quem foi – deixando a conferência para exibir os jogos. O que na minha opinião foi extremamente danoso para a conferência em si, esvaziando praticamente todo o impacto dos jogos do lançamento do Natal na coletiva, pois já havíamos visto seus vídeos e impressões.
Efeito semelhante teve o vazamento do novo design do Xbox 360 – que, ao contrário do que se pensava, não é necessariamente um slim, mas sim um sleek nas palavras da empresa, uma revisão para tornar o hardware mais silencioso, confiável e barato. Com fotos do novo console rodando a internet desde o final de semana, o impacto de seu anúncio na conferência foi de tal forma reduzido que apenas a notícia que cada um dos presentes receberia uma unidade gratuitamente realmente animou os convidados.
Em suma, avaliando a conferência em termos de show, na minha opinião faltou pegada, faltou carisma, faltaram aplausos. Mas, e em termo de jogos?
A Microsoft já havia iniciado uma tendência na E3 2009 em diminuir a quantidade de blockbusters e anúncios bombásticos de games em suas conferências, e seguiu a mesma este ano. Para a audiência hardcore, excessão feita ao anúncio do novo projeto exclusivo da Crytek, o que se viu foram demonstrações de grandes títulos que todo mundo já conhecia ou esperava. A série Halo parece finalmente estar dando conta do recado com louvor no quesito gráficos, e Gears of War evoluiu naturalmente para a campanha cooperativa em quatro jogadores. Tudo dentro do script, mas ainda assim digno de palmas.
No front do conteúdo e experiência de usuário, foram demonstrados recursos da nova dashboard como o controle por voz e o novo sistema de controle de playback dos filmes através do Kinect, estrategicamente controlados por um negro vestindo roupa preta para acabar de vez com os rumores de que o sensor não funcionava bem com negros. E o acordo com a ESPN hoje empolga os americanos, mas cairia como uma luva para os brasileiros ligados em esportes – é bom ficar de olho.
E com isto chegamos ao novo foco da conferência, quiçá da plataforma: os jogos casuais do Kinect.
Admito que tenho uma dificuldade gigantesca em avaliar o apelo dos jogos do Kinect. Minhas primeiras reações a todos eles foram a que imagino terem sido as mesmas de todos os jogadores hardcore – mas que tosco. E ainda que cada um dos títulos tenha um pequeno toque ou recurso que realmente só é possível no Kinect, é difícil não remeter ao Wii quando vemos os jogos sendo demonstrados.
Porém, à noite resolvi fazer uma pequena experiência: chamei minhas filhas para verem os trailers dos jogos (idades: 12, 11 e 9 anos). E elas simplesmente adoraram todos, com destaque para o Kinectimals, a genial transformação do Milo (que, por representar um ser humano, causou desconfiança e até mesmo medo em muitos usuários) em animais quase de pelúcia que transbordam carisma. Sinto que criei pequenos monstros que vão me perguntar todas as semanas quando “o jogo do tigrinho” chega em casa. E constatei, com toda a tristeza do mundo, que além de eu realmente estar ficando velho, estou deixando de ser o único público alvo das produtoras de games na minha casa. E vai ser difícil, muito difícil para mim abrir mão da exclusividade daquele hobby tão pessoal, o console que era só meu, e compartilhá-lo com toda a família. Mas será um caminho sem volta, e quanto antes me acostumar com isto, melhor.
Isto tudo posto, devo dizer que o que mais preocupou nesta conferência da Microsoft na E3 não foi o que vi, mas as ausências.
Esperava novidades relativas ao Windows Phone, que foi relegado a um slide e uma menção ainda menor que o Brasil pelo Marc Whiteen, e sinceramente acredito que isto machuca demais a plataforma. Seria a oportunidade perfeita para atiçar a curiosidade e o desejo do grande público pelo aparelho.
Mais do que isto, me preocupou bastante a aparente falta de apoio das third parties na conferência deste ano. Excessão feita à Activision, que mostrou um novo Call of Duty com sabor de mais do mesmo, e da Crytek com seu misterioso projeto exclusivo, nada foi visto na arena hardcore. Mas, ainda mais preocupante a meu ver, foi a quase ausência total de thirds no lançamento do Kinect. Sim, tivemos a Harmonix e a Ubisoft, mas os títulos de ambas não são exatamente inspirados – apesar de chamativos, e até potencialmente bacanas, um jogo de dança e outro de fitness já eram apostas praticamente certas para o Kinect. E apesar de todos saberem que o grande potencial e nicho do Kinect está nos jogos casuais, no fundo de nossos corações todos esperavam que algum grande gênio dos games, como o Kojima, apresentaria nesta E3 um uso realmente inovador e inesperado do antigo Project Natal. Não foi o que vimos, e isto chega a ser constrangedor para um produto que foi anunciado há exatamente um ano.
Se me permitem a opinião, acredito que as third estão em um grande compasso de espera em relação ao Kinect, e ao seu sucesso. O fato é que hoje ele é uma grande incógnita, incluindo o preço que surpreendentemente não foi revelado na coletiva. Neste aspecto, inclusive, concordo plenamente com o controverso Michael Pachter, que acertou em sua entrevista pré-coletiva para o site GameTrailers que a Microsoft não iria anunciar o preço, e para quem a empresa está aguardando o que a concorrência vai anunciar para tomar sua decisão final. Nunca o final da guerra dos consoles pareceu tão aberto e indefinido. Sorte a nossa.
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